"Se eu soubesse o preço, não teria feito doutorado": o machismo, a violência patrimonial e o descaso institucional contra mães pesquisadoras

Antecipando o Mês da Mulher, Adusb expõe como a estrutura patriarcal presente nas universidades e no sistema de justiça atua em conjunto com agressores para sabotar a carreira, a saúde mental e a maternidade de professoras.

A academia frequentemente se projeta como um espaço de vanguarda e emancipação, mas, para muitas professoras e pesquisadoras, os muros das universidades ainda abrigam um patriarcado cruel e punitivo. A proximidade do Dia Internacional da Mulher exige colocar luz sobre violências invisibilizadas nos corredores. O alto custo pessoal, financeiro e psicológico cobrado de mulheres, especialmente mães, que ousam buscar qualificação profissional.

Em entrevistas exclusivas concedidas à Adusb, em off para preservar a identidade, duas docentes relatam como o machismo opera em duas frentes simultâneas: dentro de casa, por meio da violência patrimonial e vicária, e nas instituições, por meio de uma burocracia universitária e jurídica que ignora e ridiculariza a maternidade.

A bota do patriarcado: dívidas e violência vicária

Uma das docentes ouvidas precisou se afastar para cursar o doutorado em outro estado no ano de 2021. O que deveria ser o ápice de sua formação tornou-se um pesadelo. Quando iniciou a etapa da pós-graduação, a professora auxiliou seu ex-companheiro a realizar o sonho do próprio negócio. Neste período, o homem contraiu diversos empréstimos em nome dela ou utilizando-a como fiadora. "Ele se utilizou do vínculo de companheiro para pegar vários empréstimos (...) Nessa, o meu contracheque tá hoje metade comprometido", relata a professora. Em 2024, se separaram, o negócio faliu e o valor da dívida feita em seu nome ultrapassa os R$ 200.000,00.

A Lei Maria da Penha (art. 7º, inciso IV) é clara ao definir a violência patrimonial como qualquer conduta que retenha, subtraia ou destrua recursos econômicos da mulher, dificultando sua emancipação e impossibilitando a ruptura com o ciclo de abusos. Dados recentes do Instituto Igarapé revelam que a violência patrimonial contra mulheres aumentou cerca de 56,4% no Brasil entre 2018 e 2023. 

O caso dessa docente vai além do controle financeiro; esbarra na chamada violência vicária, quando os filhos são usados para atingir e punir a mãe. Aproveitando-se do período em que a professora precisou se deslocar para realizar sua pesquisa de campo, o ex-marido a processou, alegando "abandono", pediu a guarda do filho menor e mais 40% do salário dela como pensão, exigindo ainda que ela dividisse a dívida de 200 mil reais que ele próprio criou. Vale ressaltar que o Artigo 7º, Inciso II, da Lei Maria da Penha, tipifica como crime qualquer conduta que cause dano emocional, diminuição da autoestima ou controle de comportamentos e decisões.

"Eu me sinto realmente com a bota no pescoço", desabafa a pesquisadora. "Tem quatro meses que eu não consigo pegar no computador [para escrever a tese] porque eu estou tendo que me preocupar em restaurar a minha estabilidade psicológica (...) e preservar o meu filho".

O esgotamento não é um caso isolado. Ela cita o drama de outra colega professora que teve a vida financeira destruída após o ex-marido abrir mais de 200 cartões de crédito em seu nome. Hoje, essa mãe solo tenta sustentar a criança emocionalmente e financeiramente, sem ter sequer tempo ou energia para resolver o gigantesco "pepino financeiro", e evita cobrar o agressor por medo de retaliação contra o próprio filho.

A punição por estudar: um padrão 

O calvário enfrentado pela primeira docente não é um caso isolado, mas o reflexo de um padrão sistêmico de retaliação: o uso da mobilidade acadêmica, exigência comum na pós-graduação, como arma jurídica contra as mães. Para conseguir realizar sua pesquisa de campo, a docente concordou, em um arranjo informal, que o filho  ficasse temporariamente com o pai para não interromper o ano escolar da criança. O que era um acordo de cuidado virou uma armadilha. Quando o prazo acadêmico da mãe terminou e ela precisou retornar ao seu posto de trabalho na Bahia, o ex-marido se recusou a cumprir o combinado e entrou na Justiça pedindo a guarda definitiva.

"Meu ex-companheiro utilizou da minha licença, do meu período de trabalho de campo (...) para alegar no processo que eu deixei o meu filho aos seus cuidados exclusivos e voltei voluntariamente pra Bahia ", denuncia a professora. A dor da possibilidade de perder a guarda é descrita por ela como uma retaliação direta pelo resgate de sua autonomia. "O pai não quer voltar para a Bahia e acha que tem direito de tirar o meu filho de mim porque eu dei limites, me neguei a pegar novos empréstimos”, explica.

Essa criminalização da mãe pesquisadora ecoa assustadoramente na trajetória da segunda professora entrevistada, que também precisou se afastar para cursar o doutorado em outro estado anos antes. Assim como no primeiro caso, o ex-companheiro utilizou o deslocamento acadêmico contra ela na justiça. O advogado do homem interpelou o processo de guarda e pensão argumentando que o domicílio da criança deveria passar a ser o estado, que fica há mais de 1000km da cidade na qual a pesquisadora exerce a docência, anexando fotos da filha na escola para atrasar o julgamento e tentar mudar a jurisdição do caso.

A lentidão do sistema de justiça, que levou mais de 6 anos para julgar o caso da docente, gerou um ambiente de profunda "incerteza [e] insegurança" sobre o futuro da filha. O terror psicológico imposto a essas docentes é tão grave que a segunda mãe relata o absurdo de ter precisado consultar seu advogado algumas vezes para saber se o simples ato de retornar para a Bahia com a própria filha "não configuraria como um sequestro".

Além da perseguição judicial, a estrutura acadêmica gera uma sobrecarga desumana e um sentimento constante de culpa em mães. A docente ilustra perfeitamente essa dor ao relembrar a exaustão durante a preparação para o seu exame de qualificação. Tendo que se desdobrar para ser mãe, pai e profissional, ela passava os finais de semana imersa no trabalho enquanto revezava os cuidados. O peso e a dor dessa ausência foram verbalizados pela própria filha de forma devastadora: "Mãe, você gosta mais do seu computador do que de mim".

Após fazer um acordo e explicar à criança que precisava de um mês de dedicação extrema para realizar a qualificação, a pesquisadora foi aprovada. Ao chegar em casa com a boa notícia, ouviu da filha mais uma dura cobrança estrutural: "Ah, então tá bom. Então agora você vai voltar a ser minha mãe? A gente vai voltar a ter tempo? Você vai ter tempo para mim agora?". Para a docente, relembrar esse episódio traz a vontade de chorar de todas as ausências exigidas pela academia.

Nessas narrativas entrelaçadas, fica evidente como o sistema valida o machismo. A dedicação à pesquisa, que deveria ser motivo de reconhecimento profissional, é repetidamente distorcida pelos agressores, e muitas vezes acatada pelos tribunais, como "abandono materno", punindo as mulheres que ousam se qualificar profissionalmente.

A violência institucional e a universidade que não foi feita para mães

É nesse ponto de extrema vulnerabilidade emocional e financeira que as docentes encontram a violência institucional. A estrutura das Instituições de Ensino Superior (IES) foi historicamente desenhada por homens e para homens, pressupondo um pesquisador padrão que não possui responsabilidades de cuidado. Para as mulheres mães, a burocracia universitária é insensível e engessada na própria lei. O direito ao afastamento para qualificação é garantido pelo Estatuto do Magistério (Lei Estadual nº 8.352/2002), mas a forma como ele acontece é ditada por normativas internas, como a Resolução CONSEPE nº 023/2003 da Uesb.

A resolução estabelece prazos rígidos para a conclusão do doutorado e trata as prorrogações como excepcionalidades, que dependem da boa vontade e do 'critério da instituição'. O texto da norma ignora a maternidade, visto que não há previsão de suspensão de prazos ou flexibilidade garantida para mães que lidam com a sobrecarga de cuidados ou com a adaptação escolar dos filhos.

O afastamento para o doutorado é concedido por um prazo fixo, geralmente 36 ou 48 meses. A resolução prevê que o prazo de afastamento pode ser prorrogado, geralmente por mais 6 ou 12 meses. No entanto, o texto condiciona essa prorrogação ao "interesse da instituição", à aprovação do departamento e à análise de relatórios da/o orientador/a. As normativas atrelam o cumprimento rigoroso desses prazos à manutenção do salário e de eventuais bolsas.

A segunda pesquisadora que conversamos ilustra essa rigidez. Ao finalizar seus 36 meses de afastamento, solicitou mais 9 meses para concluir a tese e alinhar o retorno com o ano letivo da filha, garantindo uma transferência escolar segura. A universidade, de forma fria, concedeu apenas 6 meses, com prazo final em pleno mês de setembro. Essa decisão arbitrária geraria um grave transtorno escolar para a criança. Após muita tensão burocrática, a professora conseguiu a extensão do prazo por mais 4 meses, o que levou ao corte sumário da bolsa de estudos, pois a instituição interpretou o pedido como uma segunda prorrogação.

Ela descreve a dor causada por essa falta de empatia institucional. "A falta de zelo com a minha filha, em saber que eu estava num doutorado com toda a carga, tendo uma filha para criar (...) Pensei em desistir várias vezes". O aprofundamento dessas dores esbarra no silenciamento e na ridicularização acadêmica. A docente lamenta que, quando as mães expõem as dificuldades da dupla ou tripla jornada na pós-graduação, a resposta institucional costuma ser o desdém. "Geralmente a gente é ridicularizada ou é tratada com indiferença... 'Seus problemas não são importantes. Resolva, porque aqui todo mundo conseguiu, você também tem que conseguir'".

Para tentar sobreviver a esse ambiente hostil, as mulheres precisam improvisar. A docente citada primeiro, relata que, diante da inexistência de creches na universidade em que realizou o doutorado, as mães precisaram se unir para organizar e autogestionar uma sala para que os filhos tivessem onde ficar durante as aulas e greves das escolas dos filhos. "A estrutura da universidade não é feita para mulheres. A maioria dos cargos de poder é ocupada por homens e são eles que pensam a universidade", conclui.

A luta sindical e a necessidade de reparação

A literatura acadêmica e psicológica comprova que abusos patrimoniais e institucionais como estes multiplicam os riscos de depressão, ansiedade e ideação suicida entre as vítimas. O adoecimento é uma consequência direta de um sistema que extrai o máximo da mulher, negando-lhe suporte. "Se eu soubesse que eu teria que pagar esse preço, eu não teria saído para fazer doutorado", desabafa a primeira professora.

Diante do abandono do Estado,que frequentemente age com misoginia nos tribunais, e da frieza administrativa das universidades, a organização sindical torna-se um escudo. A Pauta Interna de Reivindicações da Adusb ano após ano reflete a urgência dessas mulheres, exigindo a ampliação e/ou instalação de creche, a redução de carga horária para pais e mães atípicas e a implementação de políticas de proteção contra a violência de gênero. "Sempre que eu tive dúvida, qualquer coisa que eu procurei, o sindicato me ajudou (...) Me sinto muito fortalecida por ser sindicalizada", reconhece a docente.

Neste mês da mulher, as trajetórias dessas pesquisadoras não devem ser lidas apenas como histórias de superação, mas como uma denúncia. É inadmissível que o preço da formação de uma pesquisadora seja o endividamento, a ameaça de perda dos filhos e o esgotamento psicológico. As universidades precisam parar de punir as mães que pesquisam e começar a adaptar suas estruturas à realidade das mulheres que as constroem.

As instituições e os governos precisam garantir espaços de acolhimento, editais justos e proteção real às pesquisadoras. Como bem conclui a primeira  professora entrevistada: "Não dá pra gente baixar a cabeça por medo ou por cansaço. A gente tem que se unir como mulher (...) porque a gente junta não tem pra ninguém, a gente tem muita força".