A conta não fecha: Governo da Bahia asfixia orçamento da Uesb, perdoa bilhões de empresas e completa um ano sem negociar com docentes

Planilhas oficiais escancaram contingenciamento de mais de 70% nos investimentos das universidades estaduais em 2025. Enquanto grandes corporações recebem isenções bilionárias, comunidade acadêmica denuncia o silêncio de Jerônimo Rodrigues com um "bolo" de protesto.

 

A narrativa de que o Estado da Bahia não possui recursos para investir nas Universidades Estaduais (Ueba) esbarra em uma realidade: há dinheiro, mas as prioridades são outras. Uma análise detalhada das planilhas financeiras de despesas do governo estadual revela um cenário de contingenciamento sistêmico do orçamento da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e das demais instituições (Uefs, Uesc e Uneb), contrastando com, por exemplo, as isenções fiscais concedidas à iniciativa privada.

 

Para agravar o quadro de desinvestimento, no final de julho de 2026, a falta de negociações entre a administração pública e o Movimento Docente completa exato um ano. 12 meses sem diálogo sobre a pauta de reivindicações. 

 

O raio-x do contingenciamento: o que está no papel não chega aos campi

 

As planilhas de execução orçamentária comprovam que a rubrica de Investimentos, essencial para obras, reformas e compra de equipamentos, é a principal vítima da tesoura estadual.

 

Os dados consolidados de 2025 são alarmantes: o governo previu um orçamento de R$200,1 milhões para investimentos em todas as Ueba, mas executou apenas R$59,8 milhões, um percentual de 29,90%. Na prática,cerca de 70% da verba foi contingenciada. A Uesb reflete essa asfixia. Dos R$45,6 milhões aprovados para investimentos no ano passado,apenas R$14 milhões chegaram à universidade (30,69%). Esse estrangulamento não é fato isolado, mas uma política contínua. Em anos anteriores, a retenção também foi severa, com o contingenciamento de custeio na Uesb chegando a 32% logo no primeiro semestre de 2024, ameaçando o pagamento de contas básicas de água, luz, internet e segurança.

 

Para sobreviver a esse subfinanciamento, a universidade vem dependendo de Emendas Parlamentares até mesmo para manutenções físicas básicas. Em 2025, R$465 mil em emendas foram utilizadas para cobrir buracos na infraestrutura, pesquisa e extensão. Além disso, a previsão orçamentária para 2026 já apontava que haveria menos 21,85 milhões na combinação das rúbricas de manutenção e custeio e investimentos para a Uesb, em comparação com 2025.

 

O argumento governamental da falta de recursos cai por terra ao se analisar a riqueza do Estado. A Receita Líquida de Impostos (RLI) da Bahia saltou de R$10,6 bilhões em 2007 para 57,4 bilhões em 2025. Contudo, a fatia destinada às Ueba caiu de 5,38% (em 2015) para apenas 3,92% (em 2025).

 

Onde está o dinheiro? O diagnóstico aponta para a política de renúncia fiscal

 

Enquanto as universidades sofrem com falta de bolsas e laboratórios precisando de manutenção, o governo abre mão de cifras bilionárias para grandes corporações. Para a Refinaria de Mataripe S.A., a isenção foi de R$1,18 bilhões em 2023. Petrobras contou com isenção de R$473 milhões em 2022. Já a Braskem S.A. e a Coelba tiveram isenções somadas de mais de R$500 milhões em 2023.

 

Essa política de Estado evidencia que retirar verbas das universidades para financiar o grande capital é uma escolha política deliberada.

 

Um ano de silêncio: o "bolo" do Governador

 

Em meio ao desmonte financeiro, o governador Jerônimo Rodrigues virou as costas para as trabalhadoras e trabalhadores da educação. No dia 29 de julho de 2026, marca-se um ano da última reunião do governo com o Movimento Docente.

Apesar de compromissos públicos assumidos anteriormente, a pauta de reivindicações protocolada pelo Fórum das Associações Docentes (FAD) segue ignorada. Entre as demandas estão a garantia do financiamento público mínimo de 7% da RLI para as Ueba (e 1% para permanência estudantil), o pagamento do adicional de insalubridade e o respeito aos direitos trabalhistas garantidos no Estatuto do Magistério.

 

Para denunciar a desresponsabilização do governo, os docentes marcaram um ato de protesto em frente à Secretaria de Educação, no Centro Administrativo da Bahia (CAB), onde será servido um bolo simbólico marcando 1 ano sem negociações. A manifestação ilustra o bolo (descaso e abandono) que a categoria tem recebido de um governo que, enquanto afoga o ensino público estadual, garante lucros recordes a megaempresas com o dinheiro dos impostos da população baiana.