Adusb debate a realidade das mulheres negras no mundo do trabalho em mesa redonda

Em evento do Julho das Pretas, pesquisadoras e ativistas discutem a sobrecarga do trabalho reprodutivo, os resquícios históricos da escravidão nas relações trabalhistas e a urgência do fim da escala 6x1.

Para debater as desigualdades que estruturam o mercado de trabalho brasileiro, a Associação dos Docentes da Uesb (Adusb) promoveu no dia 31 de julho a mesa redonda "Mulheres Negras e o Mundo do Trabalho". O evento, que integrou a agenda do Julho das Pretas, transformou o auditório da seção sindical em um espaço de denúncia e reflexão sobre as condições precarizadas enfrentadas historicamente pela população negra feminina.

O encontro foi mediado por Émili Conceição, diretora da Adusb, e contou com as exposições da antropóloga Ranna Mirthes Sousa Correa (UnB) e da educadora e ativista Letícia Figueredo, presidenta do Movimento Negro Unificado (MNU) de Vitória da Conquista.

A discussão foi aberta com uma intervenção poético-artística do Movimento Pedra no Caminho de Racista!, liderado por Letícia Figueredo. Através do Slam (poesia falada na cultura Hiphop), ela deu o tom da resistência que marcaria as discussões da tarde: "O sistema pode até me fazer de empregada, mas jamais me fazer raciocinar como criada".

Letícia destacou que as violências sofridas pelas ancestrais negras ainda ditam o lugar social imposto a essas mulheres hoje. Ao analisar a evolução histórica do trabalho, ela pontuou a transição da escravidão para o regime formal e informal de trabalho: "Quando a gente sai da Casa Grande para a CLT, a gente marca o ápice da informalidade". Para a ativista, a luta atual do movimento negro não se desvincula da defesa da classe trabalhadora: "A nossa vida está acima do lucro e deve estar acima do lucro".

A invisibilidade do trabalho de cuidado

A antropóloga Ranna Mirthes centrou sua fala na urgência de se discutir o trabalho de cuidados (atividades domésticas, criação de filhos, cuidado com idosos e manutenção da casa) como uma questão de política pública, e não apenas um dever privado.

"A imensa carga de atividades cotidianas de gestão, sustentação e reprodução da vida tem sido historicamente uma atividade tipicamente feminina, em especial das mulheres negras", explicou a pesquisadora. Trazendo dados do IBGE, Ranna ilustrou o abismo racial dentro dessa sobrecarga: ao final de um ano, "as mulheres negras realizam quase 68 horas a mais de trabalho de cuidados não remunerável que as mulheres brancas".

Essa exaustão, segundo a pesquisadora, funciona como uma barreira que impede que essas mulheres concluam seus estudos ou disputem vagas no mercado de trabalho em igualdade de condições, reproduzindo o ciclo de pobreza. Ranna defendeu que tirar o trabalho de cuidado da invisibilidade "significa também tirar as trabalhadoras domésticas da invisibilidade", ajudando a combater os reflexos da herança colonial e escravagista.

Fim da escala 6x1 e o projeto de "Bem Viver"

A mesa ainda criticou a exploração do tempo das trabalhadoras, com defesa da redução da jornada de trabalho. Ranna foi categórica ao afirmar que "o fim da escala 6x1 no Brasil é o mínimo que as pessoas precisam para conciliar o trabalho com descanso, mas também com o lazer, e as mulheres seguem sendo as principais interessadas nessa conquista". Letícia complementou criticando as propostas no Senado que tentam precarizar ainda mais os direitos (apelidadas de "PEC do Patrão"), reforçando que a luta é por dignidade plena, não apenas por sobrevivência.

Durante o debate com, professoras/es e estudantes trouxeram relatos sobre a falta de infraestrutura da própria universidade para acolher mães estudantes, citando a insuficiência de creches e fraldários, o que afeta diretamente a permanência de mulheres negras e periféricas no ensino superior. Esse é um tema que consta na pauta interna de reivindicações protocolada pela Adusb na reitoria da Uesb. 

Ao encerrar o evento, a mediadora Émili Conceição resumiu o debate, que transcende a reparação e busca a construção de um novo modelo de sociedade pautado no "Bem Viver". Segundo ela, "esse projeto coletivo das mulheres negras por bem viver é uma oposição ao sistema capitalista", reforçando que a emancipação dessas mulheres é, fundamentalmente, o caminho para a transformação de toda a estrutura social.

 

Acesse o debate completo em nosso canal do Youtube.